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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A Maçonaria e o Levante Republicano - A Proclamação da República em 15 de novembro de 1889


Antecedentes

Por Irm.´. Luis Genaro Ladereche Fígoli (Moshe)

Desde a transferência da corte portuguesa para a sua colônia americana (Brasil) em 1808 e a instalação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves[1], em 1817, aliado ao pensamento liberal eclodido na Europa pós-Napoleão, a independência dos Estados Unidos da América, e os movimentos de independência nas Américas, o ideário republicano começou a se espalhar por todo o país, fortemente influenciado pela Maçonaria.

Em verdade, já antes disso, em 1789 ocorrera a Inconfidência Mineira, movimento de caráter autonomista, surgido em Vila Rica, causados pelo descontentamento gerado pelo abuso com que o Reino de Portugal explorava as minas da Capitania. Diante da tirania e da intransigência do governo português, um grupo de intelectuais iniciou a formular o sonho de autonomia, tendo como paradigma (obviamente) a independência dos EUA. Alguns estudantes mineiros, frequentadores de cursos universitários na Europa, foram iniciados na maçonaria francesa, por volta de 1776, e acabaram sendo influenciados pelo ideário da Revolução Francesa, profundamente inspirador da “nova” maçonaria especulativa. Dentre estes, os principais eram: José Alvares Maciel, José Joaquim da Maia e Domingos Vidal Barbosa. Maciel, inclusive participara dos movimentos maçônicos liderados por Francisco Miranda[2] interessados na independência dos países latino-americanos. Com a volta do grupo, logo, muitos intelectuais, militares e sacerdotes, participantes dos meios, ou das ideias liberais e libertárias da maçonaria, aderiram ao movimento, entre os quais o alfares Joaquim José da Silva Xavier, militar que pela sua atividade esporádica e adventícia na extração de dentes, foi alcunhado de “Tiradentes”.

Em que pese a lenda formada em torno deste personagem, não existe realmente documentação alguma que comprove que Tiradentes fosse maçom. Muitos autores, aproveitando-se do fato da documentação ter sido destruída pelos inconfidentes quando descoberta a insurreição, começaram a tirar conclusões precipitadas acerca da verdadeira participação de Tiradentes na maçonaria.  De certo é que, a bandeira que os inconfidentes imaginaram, continha um triangulo equilátero ou Delta, que é o símbolo máximo maçônico, circundado pelas palavras de um verso de Virígilio, “Libertas Quae Sera Tamen” (Libertade ainda que tardia). O fato da frase não ter sido colocada dentro do Triangulo, também tem significação maçônica, por um maçom sabe exatamente o que contêm dentro do Delta, não cabendo nenhuma outra palavra, frase ou letra.

Nos encontros secretos, convencionou-se fundar a República de Minas Gerais, mudar a capital de Vila Rica para São João del Rei, instalar uma Casa da Moeda, fábricas de ferro e pólvora, desenvolver a mineração e dar incentivo á participação da iniciativa privada (capitais privados). Tiradentes, levado pelo entusiasmo do movimento, segundo Calógeras, com “alma nobilíssima de dedicação ilimitada ao seu ideal e aos seus amigos[3], convencido do “credo de liberdade e de independência” tornou os planos que deveriam ser secretos, conhecidos por muita gente. Assim as confabulações que haviam iniciado em 1788, terminaram em Maio de 1789, com a prisão dos insurretos, após terem sido delatados por coronéis portugueses. Ao final do processo legal, os réus foram degredados[4], com exceção de Tiradentes, que tendo assumido a paternidade do movimento, foi condenado à morte por enforcamento e posterior esquartejamento, o que ocorreu de fato, em 21 de Abril de 1792, por isso comemoramos essa data como o Dia de Tiradentes em homenagem àquele que é considerado o primeiro herói brasileiro. Assim, antes de nascer, a Inconfidência havia desfalecido, porém, o seu ideário e principalmente, a brutalidade da repressão do império, marcou profundamente a opinião pública.

Todavia, a participação maçônica no movimento deve ser ressaltada, já que as ideias iniciais e o espírito de libertação chegaram a Minas na mala de homens iniciados na Maçonaria europeia. E este sentimento libertário iria se espalhar por todos os cantos do país, alguns anos depois, como veremos.

Na madrugada do dia 29 de Novembro de 1807, enquanto 50.000 soldados franceses e espanhóis invadiam as montanhas que separam Portugal de Espanha, a corte portuguesa embarcava com 10.000 ou 15.000 pessoas que acompanhavam o príncipe regente na fuga para a colônia luso-brasileira[5]. As 7 h da manha de um dia ensolarado em Lisboa, enquanto Napoleão se aproximava da capital, a nau Príncipe Real inflou as velas e começou a deslizar em direção ao Atlântico, levando a bordo o príncipe D. João VI, a sua mãe D. Maria I (a rainha louca), e os príncipes D. Pedro (o primeiro) e D. Miguel. O restante da família real estava dividida em outros três navios. Carlota Joaquina, a mulher do príncipe, viajava no Alfonso de Alburquerque[6]. Em que pese existam divergências sobre o real número de pessoas que fugiram de Portugal com a comitiva real, é importante dizer que nessa ocasião Lisboa tinha cerca de 200.000 habitantes, dando a real dimensão da operação empreendida. Viajaram pessoas da nobreza, conselheiros reais, militares, juízes, advogados, médicos, comerciantes, bispos, padres, damas de companhia e alguns milhares de passageiros não identificados catalogados. Junto à corte, veio também, a repressão à maçonaria.

Precisamos lembrar que já, em 1789, Diogo Inácio da Pina Manique acumulando as funções de desembargador, administrador da alfândega de Lisboa, administrador das calçadas e da iluminação da capital, Manique impedia a entrada de livros considerados perigosos e mandava fechar as lojas maçônicas, acusadas de promover o debate das ideias revolucionárias. Ao saber da abertura de uma loja maçônica na Ilha de Madeira, situada mil quilômetros ao sudoeste de Lisboa, Pina Manique enviou para lá um corregedor da intendência de polícia, com as seguintes instruções: “Aquele que você vir de sapatinho bicudo e muito brilhante, com presilhas nos calções, gravata por cima da barba, colarinho até meia orelha, cabelo rente na nuca e avolumado até a moleira, com suíças até os cantos da boca, agarre-o logo, tranque-o na cadeia carregado de ferros, até que haja navio para o Limoeiro: é iluminado ou pedreiro-livre”.[7]

Em 1818, talvez como repressão ao movimento Pernambucano (também inspirado na Maçonaria) e já com o monarca em território brasileiro, através do Alvará Real proibia "todas e quaesquer Sociedades Secretas, de qualquer Denominação que ellas sejam"  (no português arcaico da época). O referido Alvará Real é um documento importante na História da Maçonaria brasileira, porque a sua meta principal era, exatamente, a de proibir o funcionamento das ainda incipientes Lojas do território nacional, na época em que o Brasil era Reino Unido ao de Portugal e Algarve. Em 17 de junho de 1822 foi criada a primeira Obediência maçônica do Brasil, O Grande Oriente Brasílico, ou Brasiliano com a finalidade principal de lutar pela independência política do Brasil. Para que fosse fundado o Grande Oriente, a Loja Comércio e Artes, criada em 1815, inativa após o alvará governamental de 1818, que proibia o funcionamento das sociedades secretas, e que reerguida em 1821, foi dividida em três Lojas, daí resultando, além dela mesma, a União e Tranquilidade e a Esperança de Niterói.

A maçonaria cresceu em todo o país. Talvez não coincidentemente, pipocaram os movimentos republicanos regionais (como já havia ocorrido com Minas Gerais e sua Inconfidência Mineira em 1789 e da Revolução Pernambucana de 1817). Eclodiu a Confederação do Equador em 1824, quando a unificação do país, pós independência, encontrava resistências em muitas áreas do território nacional. Este movimento, remanescente da Revolução Pernambucana, e de inspiração maçônica, foi em oposição à prerrogativa do imperador de escolher, livremente, o Presidente da Província. O seu principal líder foi o Frei Caneca, também maçom, patriota destemido e culto, professor de filosofia, retórica e geometria, que era propagandista dos ideais republicanos. A insurreição foi combatida com violência, tendo sido preso o Frei Caneca e os outros lideres, sendo este fuzilado e os outros enforcados.

Posteriormente, em 1835, eclode a Revolução Farroupilha, no Rio Grande do Sul, motivado pela opressão tributária imposta pelo império àquela Província e pelo combate sistemático ao contrabando de gado, principal atividade dos latifundiários gaúchos. Aproveitando o ideário maçônico de libertação, independência e implantação de república, o movimento farrapo liderado pelo maçom Bento Gonçalves da Silva, após um ano de revolução e frente a uma estranha vitória[8] às margens do arroio Seival, no município de hoje Bagé, o comandante farrapo Antônio de Souza Neto, declara a Província de São Pedro independente do Império do Brasil. O que era para ser um movimento favorável à criação de uma federação no Brasil, transformou-se num movimento de  independência, que durou até 1845 com o armistício promovido pelo Duque de Caxias.

Voltando, o agitado período de transição de Reino Unido ao de Portugal e Algarves, existente desde 1815, para país independente, iria trazer intensas lutas políticas pelo poder, envolvendo o Grande Oriente, já que lá estavam dois grupos que aspiravam à privança do príncipe regente D. Pedro (depois imperador) e que desejavam comandar, politicamente a jovem nação independente: o grupo do Grão-Mestre do Grande Oriente, José Bonifácio de Andrada e Silva, ministro todo-poderoso da regência e figura internacionalmente conhecida, e o grupo do 1o. Grande Vigilante, Joaquim Gonçalves Ledo, político fluminense, que era, realmente, a maior liderança maçônica da época, mas não tinha o prestígio nacional e internacional do Andrada.

Nos primeiros dias após a proclamação da independência, de 7 de setembro de 1822, iam adiantadas as escaramuças entre os dois grupos, dentro do Grande Oriente, as quais culminariam com o golpe aplicado por Ledo, ao conseguir destituir Bonifácio do Grão-Mestrado, à socapa e fora de Assembleia Geral, empossando D. Pedro no cargo, a 4 de outubro de 1822. O troco seria no terreno político, com Bonifácio mostrando ao imperador que a luta da independência exigia um período de calmaria política interna, que estava sendo quebrada pelo grupo adversário, com exigências descabidas a D. Pedro e uma rede de intrigas, que poderiam minar a luta externa. As exigências descabidas eram: o juramento prévio de D. Pedro à Constituição ainda não votada e aprovada e a assinatura de três papéis em branco. Diante disso, enquanto José Bonifácio instaurava processo contra os membros do grupo de Ledo, D. Pedro enviava a este a ordem para fechar o Grande Oriente, o que aconteceria a 25 de outubro de 1822.

Durante praticamente todo o período restante do 1o. Império, as Lojas brasileiras permaneceram em recesso, só começando a ressurgir quando o cenário nacional caminhava para uma grave crise política, que iria levar, a 7 de abril de 1831, à abdicação de D. Pedro I em favor de seu filho, D. Pedro, então com pouco mais de cinco anos de idade, ao qual, alguns dias depois, ele escreveria uma carta, como se adulto fosse o herdeiro, plena de dramaticidade.

Em 1830, então, ressurgia a Maçonaria brasileira, com a criação do Grande Oriente Nacional Brasileiro, o qual ficou, também, conhecido como Grande Oriente da rua de Santo Antônio e, posteriormente, Grande Oriente do Passeio, em alusão aos locais em que se instalou, no Rio de Janeiro.

República

A implantação da República, em 1889, foi sem dúvida, a maior revolução de nossa História e não contou com a mobilização direta e oficial da maçonaria, como ocorrera em 1822, por ocasião da Independência, mas contou com a decisiva e eficiente participação dos maçons, civis e militares, e de muitas Lojas maçônicas, que se transformaram em verdadeiros clubes republicanos.

A ideia de um regime republicano nos meios maçônicos era antiga. Desde a emancipação do império, já havia uma facção maçônica favorável à implantação da República, liderada no Grande Oriente, por Gonçalves Ledo. A experiência dos demais países sul americanos era diferente da experiência brasileira. Lá, a independência havia ocorrido para a formação de uma república, aqui para a recriação de uma monarquia constitucional, mas uma monarquia. Todavia o grupo liderado pelo Gonçalves Ledo sabia que a República esbarrava na figura do Príncipe Regente Dom Pedro II e, também, do grupo ou facção maçônica que apoiava a monarquia, liderado por José Bonifácio de Andrada e Lima. Este lutava politicamente por uma independência que preservasse a união luso-brasileira, fundado na manutenção da monarquia  porém pretendia diminuir os poderes do Príncipe Regente em benefício da autoridade total da Constituinte de Lisboa, que fora instalada. Esta união, segundo o ideário de Bonifácio, não abdicaria da autonomia conquistada, numa política apoiada pelos proprietários, fazendeiros e comerciantes que desejavam a independência com um mínimo de modificações sociais e políticas, conservando-se a ordem estabelecida. Já Ledo e Cipriano Barata desejavam a imediata emancipação do pais, e procuravam a todo custo, precipitar a ruptura total com Portugal. Como?? Proclamando a República.

Apesar de ter prevalecido a tese de Bonifácio, já que a independência ocorreu em 1822 e passamos de um reino de Portugal para um reino do Brasil (monarquia então), e aparentemente ter pacificado o país em busca de uma unificação, além dos movimentos republicanos que eclodiram na sequência, como já nos referimos, a ideia do regime republicano era reacesa a cada nova crise política ocorrida no governo imperial.

O caldeirão foi fervendo até que, em 1870, com o manifesto republicano, liderado pelo maçom Joaquim Saldanha Marinho (na época Grão Mestre de uma facção dissidente do Grande Oriente do Brasil). Este manifesto que entre os seus signatários havia uma evidente maioria de maçons, foi redigido por outro maçom Quintino Bocaiuva, que viria a ser, posteriormente, Grão Mestre do Grande Oriente do Brasil em 1901. O Manifesto Republicano foi assinado, em Itú, São Paulo, em 3 de dezembro de 1870.

Noutra banda, e quase no mesmo momento, era empossado como Grão Mestre do Grande Oriente do Brasil, o visconde de Rio Branco, chefe do gabinete ministerial do Império, portanto, favorável à monarquia constitucional.

Nos anos seguintes ao manifesto, a par da grande campanha abolicionista (com grande participação maçônica) fervilha em todo o país o ideário republicano. Desemboca toda esta pressão, inicialmente, na chamada Convenção de Itú, em 1873, de inspiração maçônica, que foi considerada a primeira Convenção Republicana no Brasil, num ato que contou com a presença das principais lideranças políticas que trabalhavam pela instauração da República. Na convenção ficou estabelecida a fundação do Partido Republicano Paulista (PPP). Nesta convenção que apesar de ter sido realizada em São Paulo teve caráter nacional, dois destacados maçons e republicanos, chegariam posteriormente á Presidência da República: Campos Salles e Prudente de Morais.

Outro fato importante de desestabilização da monarquia, que redundou na República, fora a questão militar. Em linhas gerais, a questão militar constituiu uma série de atritos, ocorridos entre 1883 e 1889, entre os políticos e militares, causados pelo brio dos militares e pela inabilidade de políticos e ministros do império. Estes atritos iriam criar atmosfera propícia, nos últimos anos do regime imperial, para o levante militar final, o qual resultará na implantação do regime republicano. Com a morte de dois grande militares, Osório em 1877 e Caxias em 1880, os partidos saíram atrás de substitutos. Os liberais encontraram o general Correia da Câmara, visconde de Pelotas e senador pelo Rio Grande do Sul, enquanto os conservadores escolheram como líder o general Deodoro da Fonseca, maçom iniciado em 1873, na Loja Rocha Negra de São Gabriel no Rio Grande do Sul e que seria Grão Mestre do Grande Oriente do Brasil.
Com o crescimento do movimento contrario ao império (que determinava algumas punições aos militares), Deodoro assina, juntamente com Pelotas, o manifesto “Ao Parlamento e à Nação” redigido por Rui Babrosa, onde eram definidos os pontos de vista da classe militar. Como consequência desta manifestação, em junho de 1887, era criado o Clube Militar, com Deodoro na presidência.

Apesar de toda essa movimentação, os chefes militares, com patente de major para cima, eram féis (e gratos) ao Imperador, por causa da Guerra contra o Paraguai que teria se mantido firme junto às forças armadas. Todavia os postos inferiores, preenchidos por jovens alunos das escolas militares não experimentavam a mesma fidelidade ao imperador. Pior, estavam altamente doutrinados por um professor de grande prestígio da Escola Militar, o maçom e positivista tenente coronel Benjamin Constant  Botelho de Magalhães que fazia aberta apologia do regime republicano e um dos mais ardentes críticos do governo imperial.

A questão militar atinge seu ápice, quando em 1887 os fazendeiros procuraram obter do governo, a colaboração dos militares para a caça dos escravos fugitivos. Através do Clube Militar, Deodoro e Benjamin Constant, enviam para a princesa regente D. Izabel, uma mensagem onde se solicita que o exército seja dispensado dessa missão vergonhosa e desumana. Esta atitude acirrou ainda mais as relações entre os militares e o governo.

A partir de 1887 quando o imperador, minado pela diabetes, ficava privado de sua antiga energia, fazendo prever um fim próximo, com a consequente ascensão da Princesa Isabel e seu marido o Conde D´Eu ao trono, estabeleceu-se uma rede secreta de intrigas persistentes de bastidores, contra a figura da princesa e do conde. Por outro lado, o imperador já havia declarado a todos os familiares que a família real jamais cogitaria lutar pela manutenção da coroa contra a vontade popular.

Preparado em segredo, nos meios militares e nas rodas republicanas, onde era expressivo o número de maçons em sua liderança, o levante deveria ocorrer em 20 de novembro de 1889. Nos dias 13 e 14 receando-se hesitações e dificuldades de última hora e com a circulação do boato (detectado pela inteligência do exército) de que o governo determinara a prisão de Deodoro, resolveu-se antecipar o levante para a madrugada do dia 15 de novembro, com a movimentação de tropas. Já no dia 10 de novembro, na casa de Benjamin Constant, havia sido decidida a queda do império.

Entretanto Deodoro era muito afeito ao Imperador. Amizade muito antiga. Não foi firme a sua intenção de derrubar a monarquia, preferindo que o Imperador terminasse seus dias, para providenciar um novo regime. Foi então que entrou em cena, novamente, o grande maçom e articulador do movimento, Benjamin Constant. Diante da vacilação de Deodoro, Benjamin teria alertado sobre o perigo que ele correriam daí por diante, com a sobrevivência do governo imperial, já que poderiam sofrer sanções, por sua rebeldia. O argumento mais poderoso, porém, foi a informação passada por Benjamin de que o imperador pretendia entregar a chefia do gabinete ao senador Silveira Martins, que apesar de maçom, era inimigo irreconciliável de Deodoro.

Assim foi, a república, proclamada sem derramamento de sangue. É certo que a queda do império e a implantação da república foi obra quase exclusiva de militares e de maçons, sem os quais, provavelmente o regime republicano demoraria mais algum tempo para ser concretizado e não seria, provavelmente, com o imperador vivo.

 Fonte:

Castellani, Jose – A Maçonaria e o Movimento Republicano Brasileiro;

Gomes, Laurentino – 1808;

Castellani, José – A Ação Secreta da Maçonaria na Política Mundial;

Boeira, Nelson – Império, Vol 2

Venancio, Renato e Del Priore, Mary – Uma Breve História do Brasil

Ladereche Fígoli, Luis Genaro – O Surgimento da Maçonaria no Brasil (artigo)

Ladereche Fígoli, Luis Genaro – A Revolução Farroupilha e a Maçonaria (artigo)

Wikipédia



[1] - Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves foi a designação oficial assumida em 16 de dezembro de 1815 à união do Reino de Portugal e do Algarve com o Estado do Brasil, devido à transferência da família real e da nobreza portuguesa para o Brasil. Tal aconteceu por ordem do então Príncipe-regente Dom João Maria de Bragança (futuro Rei Dom João VI), após as invasões francesas a Portugal. O Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves teve apenas dois reis. No entanto, o título de Príncipe do Brasil já era utilizado pelos herdeiros da Coroa Portuguesa desde 1634.O reino desmembrou-se com a independência do Brasil, a 7 de setembro de 1822, proclamada pelo filho do Rei Dom João VI, D. Pedro de Alcântara de Bragança (futuro imperador D. Pedro I do Brasil e Rei D. Pedro IV de Portugal). Tal episódio resultou na fundação do Império do Brasil, no mesmo ano - 1822, e, por conseguinte, no desmembramento do então território brasileiro do império ultramarino português.
[2] - Sebastián Francisco de Miranda Rodríguez (Caracas, 28 de março de 1750 — San Fernando, Cádiz, 14 de julho de 1816) foi um militar venezuelano, precursor da independência da América espanhola. Executou um malogrado plano de independência das colônias espanholas na América Latina, mas que se reconhece como precursor dos ideais de Simón Bolívar e Bernardo O'Higgins, assim como de outros combatentes americanos que conseguiram a independência em grande parte da região.Com a ajuda britânica, Miranda realizou uma invasão na Venezuela em 1806. Chegou ao porto de Coro, onde a bandeira venezuelana tricolor foi içada pela primeira vez. Entre os voluntários que serviram para esta rebelião, estava David G. Burnet, dos Estados Unidos, que seria mais tarde o presidente interino da República do Texas depois de sua separação do México em 1836. Em 19 de abril de 1810 a Venezuela iniciou seu processo de independência, pelo qual Simón Bolívar persuadiu Miranda a voltar a sua terra natal, onde lhe fizeram general do exército revolucionário. Quando o país declarou formalmente a independência, em 5 de julho de 1811, ele assumiu a presidência com poderes ditatoriais.As forças espanholas contra-atacaram e Miranda, temendo uma derrota brutal e desesperada, assinou um armistício com os espanhóis em julho de 1812. Bolívar e outros revolucionários acreditaram que sua rendição correspondia a uma traição às causas republicanas, e lhe frustraram a intenção de escapar. Entregaram Miranda ao exército real espanhol que o levou à prisão em Cádis, Espanha, onde morreu em 1816.
[3] - João Pandiá Calógeras (Rio de Janeiro, 19 de junho de 1870 — Petrópolis, 21 de abril de 1934) foi um engenheiro, geólogo e político brasileiro.
[4] - Degredado é um termo português para um condenado ao exílio, situação corrente nos séculos XV a XVIII.
[5] - Gomes, Laurentino - 1808
[6] - idem
[7] - idem página 84
[8] - Com o objetivo original de derrubar o presidente da província, apenas, os revoltosos gaúchos enfrentaram as tropas imperiais. Destacado por Bento Gonçalves, o coronel Neto deslocou-se, no início de setembro de 1836, à região de Bagé, onde se encontrava o comandante imperial João da Silva Tavares, vindo do Uruguai. A primeira brigada de Neto, com 400 homens, atravessou o arroio Seival e encontrou as tropas de Silva Tavares sobre uma coxilha, com 560 homens. Durante a tarde de 10 de setembro de 1836, Silva Tavares avançou sobre a coxilha, e os revoltosos defenderam-se usando lanças e espadas. Inicialmente houve pequena vantagem das forças imperiais, mas o cavalo de Silva Tavares, com o freio rebentado na peleia, disparou em velocidade, causando a impressão de fuga, mesmo entre seus comandados. A confusão entre eles foi aproveitada pelos cavaleiros de Neto, que atacaram com força redobrada. O resultado deste mal-entendido foi ficarem os revoltosos quase intactos, enquanto houve 180 mortos, 63 feridos e 100 prisioneiros do lado dos imperiais. Entre os prisioneios estava João Frederico Caldwell.
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sábado, 6 de outubro de 2012

O que é Maçonaria? Palestra

 

Palestra proferida pelo Irm.´. Luis Genaro em encontro ecumênico na cidade de Tramandaí/RS, sobre a Maçonaria e a Paz, com a presença do médium Divaldo Pereira Franco. Clique para ler mais...

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

MAÇONARIA: O Sentido da Vida. Uma Jornada para a Felicidade



Vida é um tesouro precioso que a vontade Divina nos oferece.

A maneira como pensamos a vida é a condição primeira para que possamos traçar o rumo da nossa evolução, da nossa felicidade e da nossa paz, a famosa jornada para a felicidade.

O caminho é a felicidade. Felicidade não é o destino. Jesus não disse eu sou o destino, ele disse “eu sou o caminho, a verdade e a vida”. São os degraus de nossa evolução, para chegarmos a nosso objetivo.

Para medir a nossa evolução, precisamos saber:
  •  De onde saímos;
  •  Qual o caminho;
  •   Aonde queremos chegar.

Hoje, de maneira muito simples, vamos cuidar do primeiro passo. De onde saímos. 

Como uma árvore poderá ter inúmeros ramos, mas tem um tronco e uma raiz. Não queremos o fruto, queremos é a raiz, de onde viemos porque aonde vamos vai depender de cada um de nos.

Se verificarmos, a mais de 2400 anos, um pensador chamado Tales de Mileto[1] diz que a base da vida é a água. O planeta terra, nós mesmos, temos como composição celular 75% de água. De certa forma este pensador estava certo, pois a base da vida é a água.

Outro pensador Anaximandro[2] (+2400 anos atrás) dizia que a base da vida não é a água, é o ilimitado. Por quê? Muitas coisas têm limite, a altura das pessoas, o tamanho das coisas, etc. O amor tem limite?? Pode ser medido??

Seu discípulo Anaxímenes[3] dizia que a base da vida é o ar. O ar é tão importante para a conservação da vida humana que ninguém consegue se matar prendendo a própria respiração. O instinto de conservação vai falar mais forte e obrigar a respirar.

Outro pensador vai dizer que a base da vida é a Terra. Mergulhe no mais profundo do oceano, vai encontrar a terra. Onde você vive é a Terra. Já Empédocles[4] vai dizer que a base da vida é o fogo. “do Fogo viemos e ao fogo voltaremos”.

Encontramos assim os quatro elementos da natureza: Agua, Ar, Terra e Fogo, tão importantes na antiguidade e tão importante no entendimento dos fundamentos da maçonaria (vide Iniciação).

Pitágoras era um gênio da matemática. Vai morar no Egito e cria uma nova doutrina e torna-se o principal sacerdote, colocando a base da vida como sendo o número, ou a matemática. Ele, por exemplo, descobre a quinta e a sétima nota musical através de cálculos matemáticos. Ele descobriu a oitava que a primeira nota que se repete após a sétima num tom maior. Ele é o autor do Teorema de Pitágoras. Ele vai dizer que ´”AMOR É MATEMÁTICO”. Os mais novos devem lembrar o filme Matrix era uma somatória de  combinações matemáticas. O universo é matemático.

Outro pensador Heráclito[5] vai dizer que a base da vida é algo chamado “mudança”. Ninguém tomará banho de novo no mesmo rio. As águas serão outras. O universo está em movimento. Pegue um livro, leia-o duas vezes. Verá que percebe coisas diferentes. Um filme, igual. A base da vida é a mudança, é o movimento é o que faz a lei do progresso. É a base hoje melhor do que ontem e amanha melhor do que ontem....São os degraus da escada de nossa divina ascensão.

Heráclito foi pai de um filósofo e médico Hipócrates, do juramento da medicina. Para Hipócrates a base da vida é a saúde.

Talvez o melhor pensador de todos os tempos tenha sido Sócrates[6]. Tão importante fora, que a filosofia clássica se divide em antes e depois dele. Sócrates vai dizer que uma vida só vale a pena ser vivida se for pensada. Senão nós não vivemos, sobrevivemos. Pensar sobre a vida é muito importante. Dizem que ele era um homem com uma esposa muito problemática, por isso talvez tenha se dedicado com tanta ênfase a pensar.... Vamos dizer que não era uma acácia, era um cactos. Um homem tem uma luz interior, dizia Sócrates. Só que existe um véu embaçando a luz, e esse véu é a causa de todos os males da humanidade. Esse véu tem nome: a IGNORÂNCIA

Logo qual é o objetivo da filosofia? Arrancar o véu e fazer brilhar a sua luz!!!!! 

Essa frase tem mais de 2300 anos. É nosso segundo parto e talvez o maior e mais importante, a sensação que você vai ter arrancando o véu da ignorância, é o sofrimento, é a dor, dá trabalho. Mas a primeira experiência que você vai ter brilhando a tua luz, e conquistando a sabedoria, é uma felicidade que você nunca experimentou: Conhece-te a ti mesmo, foi a frase que Sócrates viu no Santuário de Delfus que deflagrou toda sua filosofia. O chamado AUTOCONHECIMENTO. 

Luz para os gregos é o que há de mais importante para o homem. Socrates vai falar que a luz não está mais com os Deuses, a luz está com você. Tanto que foi condenado a morte por sua filosofia. Ou seja, se seu destino pertencia aos Deuses, a partir daí passa a pertencer ao homem.

Estes sábios que citamos muito rapidamente servem para demonstrar que essa busca é antiga, importante e decisiva, para que nos consigamos cumprir nosso propósito de existência na terra que é ser feliz. Se não for feliz de nada adiantou nossa existência.

Para que dinheiro, por exemplo, se não traz felicidade. Dinheiro não compra amigos, compra companheiros de farra. Para conhecer os amigos, fique doente ou pobre, daí conhecerá o verdadeiro amigo. Dinheiro não compra saúde, compra tratamento.

Quando começamos a pensar nossa vida diferente, vamos pensando de uma maneira para que possamos estruturar a felicidade verdadeira e vivermos uma vida verdadeiramente feliz, sem as mesmices que vivemos no mundo. Desde criança somos ensinados a esperar a derrota. Quando algo da certo ficamos desconfiados. Pense e verá que é verdadeiro. Reflita.

Nosso papel é pensar positivamente a vida, é questão de opção escolher o caminho a seguir. Na vida tudo vai ser sempre opção. Vivemos decidindo a cada minuto, a cada segundo. Sempre teremos uma escolha. Ser feliz é uma escolha. Ninguém se torna infeliz da noite para o dia. Somos o somatório das decisões que adotamos. Somos não o que realmente somos, mas o que acharmos que somos. Se você acha que consegue vai à luta, e até se não conseguir, aprende com ele e faz do seu sucesso amanhã.

Mudar a maneira de pensar é o segredo. É o que fazemos na Maçonaria. É nisso que nos treinamos. É para isso que estamos aqui.

Cuide-se porque ser feliz é o melhor tesouro, o maior objetivo e o que dá sentido a nossa existência tornando-a verdadeira e significativa.

Pensando sobre a vida, voltando a Sócrates, que nós construiremos uma sociedade mais justa e uma vida mais feliz, que em definitivo, é o principal objetivo da Maçonaria.



[1] Tales de Mileto (em grego antigo: Θαλῆς ὁ Μιλήσιος) foi um filósofo da Grécia Antiga, o primeiro filósofo ocidental de que se tem notícia. De ascendência fenícia,[carece de fontes] nasceu em Mileto, antiga colônia grega, na Ásia Menor, atual Turquia, por volta de 624 ou 625 a.C. e faleceu aproximadamente em 556 ou 558 a.C..Tales é apontado como um dos sete sábios da Grécia Antiga. Além disso, foi o fundador da Escola Jônica. Considerava a água como sendo a origem de todas as coisas, e seus seguidores, embora discordassem quanto à “substância primordial” (que constituía a essência do universo), concordavam com ele no que dizia respeito à existência de um “princípio único" para essa natureza primordial.
[2] Anaximandro (em grego: Ἀναξίμανδρος; 610 — 547 a.C.) foi um geógrafo, matemático, astrônomo, político e filósofo pré-Socrático; discípulo de Tales, seguiu a escola jônica[1]. Os relatos doxográficos nos dão conta de que escreveu um livro intitulado "Sobre a Natureza"; contudo, essa obra se perdeu.Atribui-se a Anaximandro a confecção de um mapa do mundo habitado, a introdução na Grécia do uso do Gnômon (relógio solar) e a medição das distâncias entre as estrelas e o cálculo de sua magnitude (é o iniciador da astronomia grega).
[3] Anaxímenes de Mileto[1] (Grego: Άναξιμένης; 588-524 a.C.) foi um filósofo pré-socrático do Período Arcaico, activo na segunda metade do século VI a.C..[2][3] Foi um dos três filósofos da escola milésia, é identificado como estudante de Anaximandro.[4][5] Anaxímenes, tal como outros na sua escola de pensamento, praticou o materialismo monista.[6][5] Esta tendência para identificar uma específica realidade composta de um elemento material constitui o âmago das contribuições que deu fama a Anaxímenes.Escreveu a obra “Sobre a natureza”, em prosa. Dedicou-se especialmente à meteorologia. Foi o primeiro a afirmar que a luz da Lua é proveniente do Sol.
[4] Empédocles (em grego antigo: Ἐμπεδοκλῆς; Agrigento, 495/490 - 435/430 a.C.) foi um filósofo, médico, legislador, professor, mítico além de profeta, foi defensor da democracia e sustentava a idéia de que o mundo seria constituído por quatro princípios: água, ar, fogo e terra.
[5] Heraclito de Éfeso (Grego: Ἡράκλειτος ὁ Ἐφέσιος—Hērákleitos ho Ephésios, Éfeso, aprox. 535 a.C. - 475 a.C.) foi um filósofo pré-socrático considerado o "pai da dialética". Recebeu a alcunha de "Obscuro" principalmente em razão da obra a ele atribuída por Diógenes Laércio, Sobre a Natureza, em estilo obscuro, próximo ao das sentenças oraculares.Na vulgata filosófica, Heraclito é o pensador do "tudo flui" (panta rei) e do fogo, que seria o elemento do qual deriva tudo o que nos circunda. De seus escritos restaram poucos fragmentos (encontrados em obras posteriores), os quais geraram grande número de obras explicativas.
[6] Sócrates (em grego: Σωκράτης, AFI: [sɔːkrátɛːs], transl. Sōkrátēs; Atenas, c. 469 a.C. - Atenas, 399 a.C.)[1] foi um filósofo ateniense do período clássico da Grécia Antiga. Creditado como um dos fundadores da filosofia ocidental, é até hoje uma figura enigmática, conhecida principalmente através dos relatos em obras de escritores que viveram mais tarde, especialmente dois de seus alunos, Platão e Xenofonte, bem como as peças teatrais de seu contemporâneo Aristófanes. Muitos defendem que os diálogos de Platão seriam o relato mais abrangente de Sócrates a ter perdurado da Antiguidade aos dias de hoje.[2]
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sábado, 9 de junho de 2012

A Coluna da Harmonia Na Maçonaria - A Música e suas influências simbólicas e filosóficas - PARTE II


Parte II – Aspectos Filosófico-Místico no uso da Harmonia em Loja


Como vimos na parte um deste trabalho, a harmonia maçônica (ou uso de música durante os rituais maçônicos) revestem-se de dois aspectos: O histórico-simbólico e o filosófico-místico. Examinamos a origem do uso da música, nas antigas civilizações, e como esta prática chegou até a maçonaria, possivelmente a partir de influencias múltiplas (não unitárias). Todavia, devemos considerar que a influência mais importante parece ter sido da Escola Pitagórica, já que temos entendimentos comuns entre a forma como usamos a música (e suas finalidades) na maçonaria e na referida Escola.

Precisamos lembrar que Pitágoras usava a música para fortalecer a união entre os seus discípulos, por entender que a música instruía e purificava a sua mente. Em sua Escola, a música era entendida como disciplina moral por atuar como freio aos ímpetos agressivos dos ser humanos[1]. Importante são os conceitos de Harmonia Cósmica que segundo os gregos representava a qualidade de relação, ordenação e organização dessas dimensões inerentes ao "kosmos". Outros conceitos importantes para os gregos clássicos (e que devemos levar em consideração em nosso estudo pela proximidade com o que a maçonaria apregoa) é o princípio de “arque” (o princípio invisível da Unidade) e a “physis” (principio visível da Unidade) ou o UNO, que se torna o “cosmos” ou o Múltiplo, se articulando através de duas dimensões, ordem e caos. De outra forma, a Harmonia (ou música) serviria (fisicamente) para “colocar ordem no caos”. Se isto for correto, nossa intenção em Loja, ritualisticamente, seria colocar ordem no caos, ou seja, reorganizar as energias do templo de forma a harmonizar o ambiente e, com isso, elevar a níveis superiores a nossa consciência e nosso espírito. Traduzindo, regularizando a “Egrégora” da Loja.

Vamos examinar conceitualmente o que é a Egrégora.

Embora seu exato entendimento ainda esteja longe de um consenso, há um ponto comum: Egrégora é energia. Absurdos neste campo foram produzidos (e hoje rechaçados) como observa Robson Rodrigues da Silva em seu livro “Reflexos da Senda Maçônica”[2]. É o caso, por exemplo, de Eliphas Levi[3] que no século XIX produziu um texto dizendo que “As Egrégoras são deuses...As Egrégoras são espíritos motores e criadores de formas. Nascem da respiração de Deus. Deus dorme na Natureza e o mundo é seu sonho. Dormindo, ele inspira e expira. Sua respiração cria Egrégoras, e há Egrégoras da inspiração e Egrégoras da expiração..[4]. Um primor de abstração, em que pese defendermos que na Maçonaria a Verdade é de livre pensamento.

Como disse impossível falar em Egrégora sem haver referência à energia. Mesmo quando fizermos uma abstração esotérica ou ocultista, no fundo o que sentimos e queremos exprimir é um “estado”, uma “sutil força” que nos direciona para o bem estar ou mal estar, ou seja, uma energia “boa” ou “má”. Quantas vezes sentimos isso ao adentrarmos em um ambiente, nos sentimos confortáveis ou desconfortáveis, mesmo que não tenhamos trocado sequer uma palavra com ninguém que esteja no mesmo ambiente. Mais, quantas vezes nos sentimos confortáveis ou desconfortáveis num ambiente, mesmo não tendo ninguém nele? E quando passamos por um lugar fúnebre (como um cemitério), qual o “estado” que recolhemos?. Apesar de sermos mais ou menos sensitivos (uns em relação aos outros), com certeza meu leitor sabe do que estou falando, mesmo que não tenha nunca estudado nada em relação às ciências ocultas.

Pois bem, no mesmo diapasão, mas em direção oposta, já notaram qual a “energia” que “percebemos” quando nos adentramos numa Igreja? E num Templo Maçônico?. Normalmente sentimos uma coisa “boa”, uma “energia positiva”, um “estado de bem-estar” que nos satisfaz. Mas o que seria exatamente este “estado de bem-estar” de “agradável convivência”?. Entendo que é a Egrégora, ou a energia circundante no ambiente que vibra numa determinada frequência que nos faz “estabilizar” a nossa própria energia corporal. Sentimos isto através dos sentidos sutis e, porque não, em nosso espírito. É o que chamamos de Maçonaria Invisível.

Examinemos o que Einstein[5] conclui sobre energia. Segundo o sábio físico (e provou isto) matéria e energia são a mesma coisa. Na realidade são manifestações de uma mesma substância, só se diferenciando pela frequência vibratória de cada uma. Matéria é energia, apenas condensada e tornada visível. Apesar de Einstein nunca ter professado nenhuma religião (era Judeu), e como cientista ter professado mais o método do que o dogma, no final de sua vida em sua obra “Como Vejo o Mundo” no tema religiosidade, procura enfatizar seu ponto de vista do mundo e suas concepções em temas fundamentais à formação do homem, tais como o sentido da vida, o lugar do dinheiro, o fundamento da moral e a liberdade individual. O Estado, a educação, o senso de responsabilidade social, a guerra e a paz, o respeito às minorias, o trabalho, a produção e a distribuição de riquezas, o desarmamento, a convivência pacífica entre as nações são alguns dos temas que ele trata, entre outros.

Interessante é um breve discurso de Albert Einstein:

“O espírito científico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. Ela se distingue da crença das multidões ingênuas que consideram Deus um Ser de quem esperam benignidade e do qual temem o castigo - uma espécie de sentimento exaltado da mesma natureza que os laços do filho com o pai, um ser com quem também estabelecem relações pessoais, por respeitosas que sejam. Mas o sábio, bem convencido, da lei de causalidade de qualquer acontecimento, decifra o futuro e o passado submetidos às mesmas regras de necessidade e determinismo. A moral não lhe suscita problemas com os deuses, mas simplesmente com os homens. Sua religiosidade consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza, revelando uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu engenho não podem desvendar, diante dela, a não ser seu nada irrisório. Este sentimento desenvolve a regra dominante de sua vida, de sua coragem, na medida em que supera a servidão dos desejos egoístas. Indubitavelmente, este sentimento se compara àquele que animou os espíritos criadores religiosos em todos os tempos”.

Retomando, Egrégora origina-se da palavra grega egregorós que significa vigilante, ou ainda, egregorien que significa vigiar, zelar é como se denomina a entidade criada a partir do coletivo pertencente a uma assembleia.

Segundo as doutrinas que aceitam a existência de egrégoros, estes estão presentes em todas as coletividades, sejam nas mais simples associações, ou mesmo nas assembleias religiosas, gerado pelo somatório de energias físicas, emocionais e mentais de duas ou mais pessoas, quando se reúnem com qualquer finalidade.

Assim, todos os agrupamentos humanos possuem seus egrégoros característicos: as empresas, clubes, igrejas, famílias, partidos etc., onde as energias dos indivíduos se unem formando uma entidade (espírito) autônomo e mais poderoso (o egrégoro), capaz de realizar no mundo visível as suas aspirações transmitidas ao mundo invisível pela coletividade geradora. Em miúdos, um egrégoro participa ativamente de qualquer meio, físico ou abstrato.

Quando a energia é deliberadamente gerada, ela forma um padrão, ou seja, tem a tendência de se manter como está e de influenciar o meio ao seu redor. No mais, os egrégoros são esferas (concentrações) de energia comum. Quando várias pessoas tem um mesmo objetivo comum, sua energia se agrupa e se "arranja" num egrégoro. Esse é um conceito místico-filosófico com vínculos muito próximos à teoria das formas-pensamento, onde todo pensamento e energia gerada têm existência, podendo circular livremente pelo cosmo.

Essa formação se origina por cadeias de pensamento. Partindo da premissa que tudo é composto por “átomos” que são divididos em partículas subatômicas, que o homem sabe existir, seria lógico acreditar que o “pensamento” também pode ser constituído por estas partículas, pois tudo o que existe no Universo é formado por elas. A Física Quântica e mais recentemente a Química Quântica consideram a existência de outras forças no Universo ainda desconhecido pelo homem, mas que agem diretamente sobre ele, e nesse ambiente de convicções e fundamentos científicos, acredita-se na viabilidade da afirmação do “aspecto físico molecular do pensamento” até porque não se conhecem as suas propriedades, mas sim seus efeitos.[6]

Segundo Freud[7], o pensamento sobre si próprio, a construção interior sobre o certo e o errado, configura-se num elemento determinante para a saúde do corpo, e o pensamento agindo diretamente sobre o corpo físico imporá a cura, ou até mesmo a doença, motivo pelo qual é mister conhecer profundamente a força do pensamento.

O pensamento possui uma força real e poderosa que pode condensar a matéria astral solta no ambiente, originando o ser coletivo. As pessoas reunidas num local emitem vibrações idênticas e pensamentos de uma mesma natureza, resultando em um ser verdadeiro que possui vida. A Egrégora acaba recebendo energias e o conhecimento acumulado das pessoas que o formam, passando a ser mais forte que cada um dos membros individualmente. É o que chamamos de força sinérgica do pensamento[8].

O Templo dos Maçons é o berço da Egrégora que uno o corpo presente de todos os Irmãos, sendo o símbolo maior de convergência de seus pensamentos como homens, mas principalmente, como maçons. O maçom precisa estar em segurança (à coberto) e neste instante, começa a brotar em si um sentimento maior, sublime, a mostrar que não é apenas matéria, mas que existe um espírito ligado a uma mente maior, e que pode operar verdadeiras conquistas em seu interior, quando se forma um campo energético que cobre o seu corpo físico, e esse campo energético ou energia vital o une aos demais maçons, formando apenas um único corpo mental, quando a energia mental se funde em pensamentos, em forma de fluxo magnético que circula e atua entre todos os integrantes.

A Harmonia Maçônica, em definitivo, com a aplicação de música adequada a cada fase do ritual, tem por objetivo manter a Egrégora funcionando num fluxo vibratório adequado, mesmo quando cessam as palavras, a circulação e até, os próprios pensamentos.

Para finalizar, devemos considerar que em toda peça musical há três componentes principais: Ritmo, Melodia e Harmonia. O Ritmo liga-se ao Corpo Físico do Homem e influencia a dança e os movimentos. A Melodia liga-se à Alma e induz à emoção e aos sentimentos. A Harmonia conduz à Espiritualidade. Por esse motivo, nos rituais da Maçonaria usamos a música clássica em que predomina a Harmonia sobre a Melodia e o Ritmo[9].

Evite-se música rítmica e compassada nos trabalhos litúrgicos, assim como a música cantada, pois distrai, desvia a atenção, e conduz a pensamentos diversificados e extra templo, ao passo que a música clássica, descompassada, concentra e ajuda a unificar os pensamentos para a constituição da força coletiva que toda Loja possui, pelo conjunto de seus obreiros[10].

É recomendável que se utilize um repertório musical com peças de autores maçônicos, como o foram Mozart, Boieldien, Haydn, Sibelius, Liszt, Cherubini, Carlos Gomes, entre outros.[11]

Bibliografia:
Goulart Jaques, Walnyr – Uma Loja Simbólica REAA;
Da Camino, Rizzardo – O Maçom e a Intuição;
Espósito dos Santos, Amado e outros  - Manual Completo de Lojas Maçônicas;
D´Elia Junior, Raymundo -  Maçonaria 100 Instruções de Aprendiz;
Queiroz, Álvaro de – Os Símbolos Maçônicos;
Carvalho, Assis – Cargos em Loja;
Guimarães, José Francisco – Aprendiz, Conhecimentos Básicos da Maçonaria
Rodrigues da Silva, Robson – Reflexos da Senda Maçônica;
Dyer, Colin – O Simbolismo na Maçonaria
Wikipédia


[1] - Auto citação - ver Parte I deste trabalho, página 3
[2] - Rodrigues da Silva, Robson – Reflexos da Senda Maçônica Pág. 97
[3] - Eliphas Lévi, nome de baptismo Alphonse Louis Constant, (8 de fevereiro de 1810 - 31 de Maio de 1875) foi um escritor francês, e ocultista. O seu pseudónimo "Eliphas Lévi," sob o qual ele publicava seus livros, resultou de pretender ter neles um pseudónimo de origem hebraica associando-o mais facilmente a outros cabalistas famosos.
[4] - Rodrigues da Silva, Robson – Reflexos da Senda Maçônica Pág. 97 (citação)
[5] - Albert Einstein ([Ulm, 14 de março de 1879 — Princeton, 18 de abril de 1955]) foi um físico teórico alemão radicado nos Estados Unidos. É conhecido por desenvolver a teoria da relatividade. Recebeu o Nobel de Física de 1921, pela correta explicação do efeito fotoelétrico; no entanto, o prémio só foi anunciado em 1922. O seu trabalho teórico possibilitou o desenvolvimento da energia atômica, apesar de não prever tal possibilidade.
[6] - D´Elia Junior, Raymundo – Maçonaria 100 Instruções de Aprendiz.
[7] - Sigismund Schlomo Freud (Příbor, 6 de maio de 1856 — Londres, 23 de setembro de 1939), mais conhecido como Sigmund Freud, foi um médico neurologista judeu-austríaco, fundador da psicanálise. Freud nasceu em Freiburg, na época pertencente ao Império Austríaco; atualmente a localidade é denominada Příbor, na República Tcheca.
[8] - Sinergia ou sinergismo deriva do grego synergía, cooperação sýn, juntamente com érgon, trabalho. É definida como o efeito ativo e retroativo do trabalho ou esforço coordenado de vários subsistemas na realização de uma tarefa complexa ou função. Quando se tem a associação concomitante de vários dispositivos executores de determinadas funções que contribuem para uma ação coordenada, ou seja, o somatório de esforços em prol do mesmo fim, tem-se sinergia. O efeito resultante da ação de vários agentes que atuam de forma coordenada para um objetivo comum pode ter um valor superior ao valor do conjunto desses agentes, se atuassem individualmente sem esse objetivo comum previamente estabelecido. O mesmo que dizer que "o todo supera a soma das partes".
[9] - Espósito dos Santos, Amado e outros – Manual Completo para Lojas Maçônicas.
[10] - Goulart Jaques, Walnyr – Uma Loja Simbólica REEA
[11] - Espósito dos Santos, Amado e outros – Manual Completo para Lojas Maçônicas
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sábado, 26 de maio de 2012

As Colunas Gêmeas - As Colunas J e B no Templo Maçônico


Nota: É nossa linha Editoral, postar somente artigos inéditos. Entretanto pela beleza do material e sua importância no entendimento da simbologia maçônica, no que se refere às Colunas Vestibulares, ou Colunas "J" e "B", presentes em todos os Templos Maçônicos em homenagem a sua existência no Templo de Salomão (lenda bacilar da Maçonaria), publicamos este artigo, originalmente postado no site http://www.rlmad.net no qual fizemos algumas alterações e acréscimos para que o texto atinga integralmente o objetivo proposto.

Irm.´. Luis Genaro Ladereche Fígoli (Moshe)

AS COLUNAS GÊMEAS

AS COLUNAS NO PÓRTICO DE SALOMÃO

Two Columns Rug
Arquitetônica e Maçonicamente falando, a particularidade mais importante do Templo do Rei Salomão era, sem dúvida, o par de Colunas no Pórtico. O grande espaço consagrado à sua descrição na Bíblia, bem como os muitos estudos realizados, são uma boa indicação da sua importância.

Dos estudiosos, alguns, poucos, acreditam que as Colunas eram membros estruturais quer como entablamento que diretamente sustentava o teto, quer como sustento de um par transversal de anteparos que o sustentariam (1). A maioria dos estudiosos (maçônicos ou profanos, e estes leigos ou eclesiásticos), porém entende tratar se de colunas livres e puramente ornamentais ou emblemáticas, exatamente como aparecem em nossos “ Painéis da Loja”. Há razões suficientes e satisfatórias para a crença geral de que se tratava efetivamente de colunas livres e de caráter simbólico, sendo de fato “símbolos de divindade”. “Um conjunto quase irresistível de opiniões favorece a hipótese das colunas livres”(2).

As Colunas de Salomão terão sido erigidas mais especificamente para imitar os Obeliscos das entradas dos Templos Egípcios (o par de Obeliscos da entrada do Templo de Carnaque é impressionante (3)), ou talvez tenham sido copiadas de Tiro, terra de origem do seu obreiro, onde Heródoto afirmou ter visto duas colunas semelhantes defronte do templo de Hércules.
Fossem copiadas dos Templos Egípcios ou do Templo de Hércules, de qualquer modo, na arquitetura “eclesiástica” do tempo, no Médio Oriente onde nos situamos, há urna extensa preponderância de Colunas Gémeas que tem sido comentada por um sem número de estudiosos.
Há a menção particular de duas colunas semelhantes à entrada do templo de Biblo (mais tarde conhecida pelo nome de Gebel, a pátria dos gibilitas, os “cortadores de pedra” do Templo do Rei Salomão) (4).
Na Síria, escavações levadas a cabo pelo Instituto Oriental da Universidade de Chicago, em Tell Tainat, desvendaram uma pequena “capela” do século VIII a.C., anexa ao palácio dos príncipes de Hatina, onde, com clareza surgem no pórtico duas colunas livres, e segundo tudo indica, mais puramente simbólicas ou ornamentais do que arquitetonicamente funcionais. “Existem agora provas suficientes de que esse tipo de construção era muito comum na Fenícia” (5).
Quanto aos Obeliscos egípcios, os mais conhecidos são o par que Tutmósis III fez erguer em Heliopolis no século V a.C., e que Augusto César posteriormente transferiu para o Caesareum de Alexandria, um dos quais adorna hoje o Cais do Tamisa em Londres e outro um recanto do Central Park de Nova York (6).
A descrição Bíblica das Colunas Salomónicas é a seguinte:
“Assim terminou ele [Hirão] de fazer a obra para o Rei Salomão, para a casa de Deus:
As duas colunas, e os globos, os dois capiteis sobre as cabeças das colunas; as duas redes para cobrir os globos dos capiteis que estavam sobre a cabeça das colunas:
As quatrocentas romãs para as duas redes: duas carreiras de romãs para cada rede, para cobrirem os dois globos dos capiteis que estavam em cima das colunas.
Na planície do Jordão, o rei os fez fundir em terra barrenta, entre Sucoth e Zeredata” (7).
“Fez também diante da casa duas colunas de trinta e cinco côvados de altura; e o capitel que estava sobre cada uma era de cinco côvados.
Também fez as cadeias como no Santo dos Santos, e as pôs sobre as cabeças das colunas: fez também cem romãs as quais pôs entre as cadeias.
E levantou as colunas diante do templo, uma à direita e outra à esquerda; e chamou o nome da [que estava] à direita Jachin, o nome da [que estava] à esquerda, Boaz” (8).
“A altura de uma coluna era de dezoito côvados, e sobre ela [havia] um capitel de cobre, e de altura tinha o capitel três côvados; e a rede, e as romãs em roda do capitel, tudo [era] de bronze; e semelhante a esta, era a outra coluna, com a rede” (9).
Esta era a idade do bronze na arquitetura. Homero fala nos dela na casa de Alcino. Os tesouros de Micenas eram recobertos internamente de chapas de bronze, e nos túmulos etruscos dessa idade esse metal era muito mais material de decoração do que o trabalho em pedra ou outro.
O Altar do Templo fora feito de Bronze, e sustentavam o "Mar de Bronze" doze bois de bronze.
Os suportes, as pias e todos os outros objetos de metal, conjuntamente com as Duas Colunas, eram, na realidade, o que tanto celebrizava o Templo.

A LOCALIZAÇÃO DAS COLUNAS

Houve muita especulação entre estudiosos, maçônicos e não maçônicos sobre a designação das Colunas como “direita” e “esquerda”, uns tomam na no ponto de vista de quem entra no Templo, e outros de quem sai. O problema porém está ligado a uma pressuposição que está ligada à questão subsidiária da Orientação do Templo.
Sabe se que os antigos hebreus se referiam ao que denominamos os quatro pontos cardeais, colocando se na posição de um homem que olhasse o Sol Nascente. Assim, à palavra “direita” equipara se a posição geográfica “sul”, e à palavra “esquerda” a posição geográfica “norte”, de modo que, quando se fala localmente, é evidente que Mão Direita e Sul são sinônimos 10.
Esta concepção dos Pontos Cardeais é nos confirmada não só pela Enciclopédia Bíblica, mas também pela Enciclopédia Judaica, que garantem: – “O leste era chamado ‘a frente’; o oeste, ‘a parte de trás’; o sul, ‘a direita’; e o norte, a ‘esquerda’”.


A tentativa de solução do problema, tomando por base a concepção de que a posição das Duas Colunas é vista pela pessoa que sai do templo, e por tal se aproxima das colunas vinda de dentro, é, [na minha opinião] altamente artificial, pois a primeira vista que se tem de um edifício é sempre de fora, e nunca de dentro. Por conseguinte, a primeira descrição de um edifício, ou de suas características externas (como se presume que o fossem as Duas Colunas) reflete sempre o ponto de vista do observador que desse edifício se aproxima e o avista pela primeira vez, e isso só pode ser, por força, do lado de fora. Portanto, o ponto de vista do fiel saindo do templo não é realística, pois como pode alguém sair de um lugar sem aí haver entrado?
Tem sido muitas vezes assinalado pelos comentadores bíblicos que o Templo de Salomão nunca se destinou a conter numerosos fieis, mas apenas os sacerdotes oficiantes; esperava se que esses fieis se congregassem no Pátio do Templo, de onde lhes seria dado ver as Duas Colunas [do lado de fora].
Encerrando a questão, encontramos num Catecismo de 1724 (11) as seguintes pergunta e resposta:
  • P. – Em que parte do Templo se manteve a [primeira] Loja?
  • R. – No Pórtico de Salomão, na extremidade Ocidental do Templo, onde se erguiam as Duas Colunas.
Sobre a altura das Duas Colunas, 18 ou 35 côvados, pode tratar se apenas de dois tipos de medida diferentes, a saber: – o côvado de construção (36 cm) ou o côvado real (62,5 cm), como pode também ter havido erro provocado pela semelhança entre os caracteres hebraicos correspondentes a 18 [yod hé] e 35 [lamed hé]. Um yod mal escrito ou desfigurado pelo tempo, poderia, num manuscrito, ser tomado por um lamed; e um lamed parcialmente desfigurado poderia, ainda mais facilmente ser tomado por um yod. De qualquer forma tratava se de Duas Colunas imponentes, que com a variante do capitel incluído ou não, nos conduzem a sete vezes a estatura de um homem, alto para a sua época, múltiplo este que se encontra em outras edificações “eclesiásticas” de então ou hodiernas.
A tradição maçônica de que as Duas Colunas foram “feitas ocas”, pode ser suportada, do ponto de vista do fundidor, por necessidade, apenas com uma grossura de “uma palma de mão”, a fim de lhes reduzir o peso, e teria assim de ser o bronze vertido em torno de um núcleo central que pudesse posteriormente ser retirado como se diz que aconteceu com as colunas, fundidas “na planície do Jordão”, ... em terra barrenta, entre Sucoth e Zeredata (12). Igualmente, uma “tenda das Colunas Ocas”, em ligação com a “Lenda do Xamir”, suporta que as colunas foram feitas ocas para depósito dos registos e escritos valiosos, podendo, naturalmente estar ligada à das Colunas Antediluvianas (Uma delas em mármore, que “nunca arderia”, e outra em tijolo, “que nunca afundaria na água”, pois os homens sabiam, assim o dissera Adão, que seriam destruídos pelo fogo ou pela água, e assim guardariam o trabalho de muito estudo, em ordem a salvá lo, para auxílio do gênero humano).
De um ponto de vista antropológico, elas não eram senão uma sobrevivência dos antigos pilares de pedra, os Mazzeboth (13), que foram originalmente emblemas fálicos, como nos confirma Ward (14) na descrição da Cerimónia em Heirápolis (15): “havia dois grandes falos, de trinta braças de altura, erguidos à porta do templo de Astarte, em que, duas vezes por ano um homem... subia ao cimo, por dentro delas, ... afim de assegurar a prosperidade e fertilidade da terra, representando o processo de fertilização...”.
Segundo o mesmo Ward, as Duas Colunas Salomónicas são igualmente fálicas, essas “duas colunas, com seus globos... os capiteis enfeitados com entalhes minuciosos [as romãs], transmitem a ideia da fertilidade, não sendo mais que vestígios do prepúcio (o restante teria sido removido pela circuncisão) artisticamente representados”. Até a “obra de lírios”, que adorna o capitel, como emblema de pureza, pode não estar deslocada nesse simbolismo.

O SIGNIFICADO DAS COLUNAS GÉMEAS

Sobre o possível sentido e significado das colunas, duas questões principais se nos colocam:
  1. Porque lhes foi dado um nome?
  2. Quais os seus possíveis significados?
Quanto à primeira questão, parece ter sido costume entre os povos do Médio Oriente dar nome aos objetos sagrados; assim os Babilónicos consta que, em comum com as nações suas vizinhas, tinham o costume de atribuir nomes significativos e, de certa forma, sagrados aos seus edifícios. Da mesma forma está escrito que, para comemorar a vitória dos israelitas sobre Amaleque, “Moisés edificou um altar e lhe chamou Adoni nissi [o Senhor é minha bandeira]” (16). Dessa maneira estabelece se que, de fato as Duas Colunas não eram somente objetos decorativos ou funcionais, mas também objetos sagrados por causa dos nomes peculiares que lhes foram dados.
Masonic Oil Painting
Quanto à segunda questão, o seu significado tem sido interpretado quer etimológica, quer simbolicamente.

Assim, na tradução grega da Bíblia, a Versão dos Setenta, os dois nomes em Crónicas, são traduzidos por palavras que significam “força” e “direito”. A Bíblia de Genebra traduzia Jachin por “firmar” e Boaz por “em força”, mas Lionel Vibert critica a tradução e afirma que o certo seria “Ele firmará” e “Nele há força” (17).
Pelo menos dois autores (18) entendem que Salomão ergueu as Duas Colunas como monumento comemorativo das promessas feitas pelo Senhor ao seu pai David, e que lhe foram repetidas numa visão, em que a voz do Senhor proclamou: ‘então confirmarei o trono de teu reino sobre Israel para sempre’ (19); a mesma promessa é feita num sonho ao profeta Natã: ‘Vai, e diz a meu servo David: Assim diz o Senhor... Porém a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre... (20)’. Assim a palavra Jachin derivará da palavra Jah, que significa “Jeová”, enquanto que achir significa “firmar” e quer dizer que “Deus firmará a sua casa de Israel”; Boaz, da mesma forma se comporá de B, que significa “em” e oaz, que significa “força”, dando se ao todo o significado de “em força ela será firmada”.
Entretanto o hábito de dar uma interpretação moral aos nomes das Duas Colunas não é uma invenção maçônica. Já no Século XVII um Teólogo Puritano se manifestou escrevendo que essas colunas foram erguidas “para notar que foi Deus quem lhe deu o poder e o domínio sobre todas aquelas nações, e cumpria a promessa feita a Moisés e ao seu povo de Israel” (21). “Os topos das colunas eram curiosamente adornados: para mostrar que os que persistem, constantes, até ao fim serão coroados. O trabalho de lírios [simbolizava] o Emblema da Inocência, Romãs o da produtividade, havendo muitas sementes num pomo: a Coroa deles lhes declarará a Glória....”.
Em consonância com o costume, já mencionado, de os antigos hebreus darem nomes significativos aos objetos sagrados, os estudiosos modernos da Bíblia concordam em que os nomes das Duas Colunas devem ser enigmáticos; além do mais, que eles devem ter um significado religioso; as colunas têm nome porque são objetos sagrados.
Procurando o possível significado desses nomes, obviamente enigmáticos, e “examinando em seguida o Salmo que dizem haver Salomão cantado ao concluir se o templo, notamos que duas das frases notáveis nele são... para a ‘firmação’ do sol em sua gloriosa mansão no céu, e...para a ‘casa grande’ ou templo em que Iavé habitaria para sempre” (22)
Temos pois que estas colunas estavam nos templos semíticos porque eram uma característica usual dos símbolos da divindade, mas, porquê duas colunas se apenas um Deus único é representado?
Entre os Semitas, e outros povos daquela época e área geográfica, os deuses andavam aos pares, macho e fêmea, como Baal e Astarte, Osiris e Isis, etc. É assim possível aceitar que as Duas Colunas representassem o macho e a fêmea, os princípios ativo e passivo da natureza.
Nunca houve contestação sobre o sexo das colunas, a primeira delas “suficientemente caracterizada pelo Iod inicial que a designa comummente. Com efeito essa letra hebraica corresponde à masculinidade por excelência. Beth, a segunda letra do alfabeto hebraico, por outro lado, é considerada como essencialmente feminina, porque o seu nome quer dizer casa, habitação, de onde a ideia de receptáculo, de caverna, de útero, etc. A Coluna J é, portanto, masculina activa, e a Coluna B feminina passiva” (23).
Assim como as duas colunas do grande templo de Tiro eram símbolos gémeos de Melcarte, o deus de Tiro, assim também, com grande probabilidade as duas colunas erguidas pelo mestre tirio [Hirão], de frente ao Templo de Salomão, deviam ser símbolos de Jeová, o Deus de Israel; as Duas colunas são elas mesmas designações de Jeová.
Quanto ao seu significado, provavelmente a melhor explicação dos dois nomes é a da Enciclopédia Judaica:
  • “Jachin” (“Ele firmará”), e
  • “Boaz” (“Nele está a força”).

OUTRAS INTERPRETAÇÕES
Podiam os nomes Jachin e Boaz serem as palavras iniciais de duas sentenças completas. prática para a qual, ao que tudo indica, havia precedentes tanto bíblicos quanto extrabíblicos; na Babilónia era costume dar por nome a certas colunas uma sentença inteira.
As colunas de Salomão podem ter tido algum significado especial para as cerimónias da aliança e da coroação.
Quanto à primeira, lemos, em relação a Josias: “O Rei se pôs em pé junto à coluna, e fez aliança perante o Senhor ...” (24).
Quanto à segunda lemos também, sobre a coroação do Rei Joás: “[Atália] olhou, e eis que o rei estava junto à coluna, conforme o costume...” (25) (há, de certo alguma semelhança com o significado que tem a pedra de Scone na coroação dos soberanos britânicos).
Nesse sentido, e com o devido respeito ao desenvolvimento original da fórmula maçônica para interpretar esses nomes, é interessante saber que em 1765 o Dr. Dodd imputava aos autores da História Universal a sugestão de que “Jachin” e “Boaz” eram as palavras iniciais de duas inscrições completas no suporte das Duas Colunas, que hoje vieram a ser conhecidas apenas pelas palavras iniciais, como os Livros de Moisés são chamados pelas primeiras palavras usadas em cada livro da Bíblia (26).
Seguindo essas reflexões, e estabelecendo um paralelo entre “Jachin” e “Iavé”, como equivalente emblemático da Divindade, o mesmo autor (27) é de parecer que “existe uma evidência suficiente para justificar a opinião de que a coluna erguida no lado meridional do pórtico do templo tirava o seu nome da palavra original de uma inscrição que nela se fez mais ou menos com estas palavras: ‘Ele (Iavé) confirmará o trono de David, e seu reino para sua semente por todo o sempre’.”
Igual e relativamente à outra coluna: “A coluna da esquerda era aquela junto da qual se postava todo o sumo sacerdote no momento da sua consagração. Boaz ‘Nele sua força era lhe um perpétuo lembrete, enquanto passava e repassava por ela, de que a sua ‘força’ residia no favor de Jeová e no cumprimento da Sua lei.”
Procurando equiparar simbologias, vamos encontrar no Egipto, uma muito forte semelhança: “Na entrada principal dos templos havia sempre duas colunas; uma era a coluna de Set e outra era a coluna de Horo..., uma chamada Tatt, e a outra chamada Tattu.... Tatt que, em egípcio significava “em força”, e Tattu, que significava confirmar” (28).

CONCLUSÕES

Podemos concluir que, tal como relativamente a outras particularidades ornamentais e arquitetônicas do próprio templo, também a narrativa das Duas Colunas aparece enfeitada com a lenda, exposições, comentários e críticas; notamos corroborações e discrepâncias entre a tradição maçônica e as Escrituras, e até incompatibilidades entre vários Livros da Bíblia; encontramos anacronismos e improvabilidades, que procuramos compreender, ainda que os não possamos justificar.
Em tudo o que fazemos há sempre qualquer coisa que falta, que não conseguimos, que não nos satisfaz completamente; quando julgamos tudo ter previsto, apuramos que algo ficou por prever; quando damos algo por concluído, concluímos que há ainda alguma coisa que se não fez.
O nosso orgulho é assim forçado a reconhecer a imperfeição das nossas obras. É desse reconhecimento que provém este desejo insaciável de caminhar para a perfectibilidade, de atingir o “ ideal”, que de nós se afasta quando pensamos dele nos avizinhar. Porquê? “Porque o belo é o infinito visto através do finito” (29)
Aceitando nós Maçons, importar nos mais o significado esotérico, do que a realidade histórica, ou acepção religiosa do Templo de Salomão, interessará para além do interesse legítimo da averiguação, sabermos qual o seu significado pelo que encerrarei esta prancha com a transcrição do que [no meu modesto parecer] de melhor encontrei sobre o tema:
As Duas Colunas assinalam os limites do Mundo criado, os limites do mundo profano, de que a vida e a morte são a antinomia extrema de um simbolismo que tende para um equilíbrio que jamais será conseguido. As forças construtivas não devem agir senão quando as forças destrutivas tiverem terminado a sua tarefa. Essas forças são ‘necessárias’ uma à outra. Não se pode conceber a coluna J. sem a coluna B; o calor sem o frio, a laz sem as trevas, etc . Todo o ser vivo se encontra constantemente num estado de equilíbrio instável, formado pela criação de células novas e a eliminação de células mortas. As Novas gerações não podem afirmar se senão à medida que as antigas lhes cedem o lugar.
Essas Duas Colunas são a imagem exata do Mundo, e é conveniente que este fique fora do Templo! O Templo é sustentado por Pilares, que se situam no mundo dos Arquétipos, onde tudo se funde numa Luz cujo brilho é imarcescível.” (30)
Bibliografia:
  1. James Fergusson, F.R.S., The Temples of the Jews. Londres, 1878
  2. W. F. Stinespring, The Interpreter’s Dictionary of the Bible, 1962. (autor não maçónico coincidente com a tradição maçónica)
  3. Ancient Records and the Bible.
  4. R. B. Y. Scott, do United Theological College of Montreal, no Journal of Biblical Literature.
  5. G. Ernest Wright “Solomon’s Temple Resurrected”. The Biblical Archaeologist, Maio de 1941.
  6. Hoje ambos designados por “Agulha de Cleópatra”.
  7. II Livro das Crónicas 4: 11-17
  8. II Livro das Crónicas 3: 15-17
  9. II Livro das reis 25: 17
  10. Joseph Young – “The Temple of Solomon”, British Masonic Miscellany
  11. The Grand Mistery of Free Masons Discovery’d
  12. II Livro das Crónicas 4: -17
  13. Mazzebath – “monumento de pedra erguido como marco comemorativo ou objecto de culto”
  14. J. S. M. Ward – Londres 1925; Ward escora-se na autoridade de Luciano em De Dea Syria (Séc. II d. C.)
  15. Actual Menbij
  16. Êxodo 17:15
  17. Lionel Vibert – Freemasonry before the existence of Grand Lodges
  18. A. G. Mackey e William Hutchinson
  19. I Livro dos Reis 9: 15
  20. II Livro de Samuel 7: 5, 16
  21. Samuel Lee, Orbis Miraculum, 1659
  22. Encyclopeda Biblica
  23. Jules Boucher – La Symbolique Maçonnique
  24. II Livro dos Reis 23: 3
  25. II Livro dos Reis 11: 14
  26. Caldecott, Solomon’s Temple
  27. Albert Churchward, The Arcana of Freemasonry
  28. Immanuel Kant
  29. Jules Boucher – La Symbolique Maçonnique
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